Hermenêutica da continuidade

Sabemos que a Bíblia Sagrada, é parte da Revelação da Palavra de Deus, ou melhor, é a Palavra da Deus em linguagem humana, ao passo, que Cristo é a Revelação plena, o Verbo Divino que se faz carne e que nascendo de Maria veio ao mundo. Entretanto, a Bíblia como conhecemos hoje, levou muitos anos para ser propriamente formada. O Escrito Sagrado é rico em formas de linguagem, apresenta-nos alegorias, parábolas, descrições históricas, milagres, leis, em suma: Revela-nos a Escritura a ação de um Deus Senhor da vida e da história da humanidade e do universo. 

A interpretação da Sagrada Escritura, não é de livre vontade, necessariamente, a Igreja a confia a luz do Espírito Santo ao Magistério para tal intento. É preciso fazer uma contextualização do texto, uma atualização na história atual e mergulho na mensagem contida naquele texto no período a que se refere e sua relevância em todo processo da ação de Deus no mundo. Uma busca pelo significado das palavras em sua linguagem original (no idioma a que foi escrito) para melhor conhecer o sentido daquilo que está dito. A essa interpretação assídua e de tarefa não muito fácil chamamos hermenêutica, e, por isso, assim, podemos no hoje da história, continuar a beber da rica fonte da Bíblia e nos orientarmos pela sua sabedoria, conhecendo melhor a fé que professamos. 

Também hoje, é assim como da Bíblia, pensarmos a Igreja de forma hermenêutica, perene, e nos atentarmos aos sinais do Espírito Santo na direção da Barca de São Pedro. Parece crescer não uma hermenêutica de continuidade, mas, uma hermenêutica de ruptura, o que compromete o conteúdo integral da Boa-Nova, o papel insubstituível da Evangelização, missão a que todos nós batizados somos chamados e enviados. 

Por hermenêutica de ruptura, uma definição simples, mas, nem por isso não verdadeira: Há que se ter o cuidado em não isolar determinados momentos da história da Igreja, determinadas passagens da Escritura, certo apreço pelo que fala um ou outro teólogo, exclusão arbitrária de determinações da Igreja sobre assuntos como Moral, Liturgia, Código Canônico, orientação da Doutrina Social da Igreja etc... em prol de mera opinião pessoal ou apego a visões alheias que não levam em conta a totalidade do ensinamento da Tradição e do Magistério. A teologia da Igreja, não é só a teologia latino-americana, a Igreja não começou depois do Concílio Vaticano II, (e tampouco o seu contrário) a opção pelos pobres não é ação de um grupo seleto, mas, mandato apostólico, e tal deve ser feita, não como ideologização política, mas, promoção da vida plena, pois, há, os pobres em pão, os pobres em Espírito, e os pobres em ambas situações: e todos, para além de classe econômica, são a missão da ação evangelizadora da Igreja, que deve prezar por uma ação integral de promoção humana e espiritual. Sobretudo espiritual, pois, a Salvação trazida por Cristo não é outra que não a Salvação para a Vida Eterna, sem, claro, esquecer-se de denunciar e pôr-se contra as maldades e injustiças deste mundo, como fez o próprio Jesus.  A ruptura, a divisão, tem várias faces e várias formas, é a “fumaça de Satanás”, (como disse Paulo VI), que entrando na Igreja, provoca intrigas, desobediência, má-fé, desleixo de um viés da missão em prol de outro, comodismo e falta de diálogo, perseguições e má orientação ao povo de Deus.  É preciso pensar a Igreja e nossa ação pastoral, litúrgica, sacramental, enfim, a vida cristã, como um processo de Continuidade. 

Por hermenêutica de continuidade, já conforme anunciado, convém primeiro, conhecer a história, identificar o que precisamos manter vivo em nossa ação evangelizadora, saber que estamos a serviço de algo muito maior que nós, e, que desde os apóstolos a missão de viver e anunciar testemunhalmente o Evangelho existe. Que muitos foram os Concílios, que muitos gastaram a vida por Cristo, que através de milênios a Igreja cuidou para que hoje tivéssemos os meios que temos para melhor anunciar o Cristo, e que a Santidade de vida é o desejo de Deus a todos nós. Precisamos de uma análise de nossa mentalidade e da conjuntura de nossas ações, para darmo-nos conta que não temos o direito de pensar que o Espírito Santo age como, quando e do jeito que pensamos, mas, que este é livre e através dos tempos suscita diferentes modos e meios para falar aos corações humanos, e que nem sempre essas mudanças são em primeira tentativa bem recebidas. Não se trata de voltar ao passado ou projetar um futuro demasiadamente idealizado, muito menos de desviar-se para a esquerda ou à direita, mas, de conhecer o que o hoje da Igreja e a necessidade do mundo estão querendo nos comunicar.  Não para a divisão entre nós! Reconheçamos que a Igreja é a unidade na diversidade, em que cada um com seu testemunho, modo, jeito, ação, visão, deve ser flecha que aponta para a Luz que é Cristo! E, que temos nossa unidade salvaguardada pela comunhão com a Sé Apostólica hoje ocupada pelo Santo Padre Francisco. 

A Igreja precisa ser Sal e Sinal Visível em tudo da Salvação, opor-se ao que ofende a vida, lembrar por seus sinais e ministros a Presença do Sagrado no mundo, com gestos, comportamentos e vós ativa! A melhor catequese, será sempre como disse Bento XVI, “uma liturgia bem celebrada”, o melhor anúncio do Evangelho: o que fazemos com nossa vida na medida que nos configuramos à Cristo, e como nos diz o Papa Francisco: “Deus dá sempre o primeiro passo, ele se move para nós”, estejamos atentos e vigilantes, pois, ai de nós se na tentativa de provarmos estar certo sobre “A” ou “B”, agirmos com mediocridade na vocação que recebemos, e sobretudo apontarmos outros caminhos que não Jesus: Caminho, Verdade e Vida por excelência. 


Por: Daniel Soares das Chagas

Seminarista da Diocese de Cruz Alta

1º ano de Teologia

Publicada em 16/06/2017 às 15:39:19

Mitra Diocesana - Rua Duque de Caxias, 729 - Cruz Alta RS, 98005-200 - (0xx)55 3322-6920