A atualidade da mensagem de Fátima II

Artigo - O drama da vida humana, tocada e marcada pelos signos do pecado e do mal, é apresentado de maneira bastante lúcida na mensagem de Fátima, sobretudo através das visões do inferno, da cidade em ruínas e nas numerosas alusões aos pecadores, portadores da atenção e do amor misericordioso de Deus. Frente ao pecado, origem da infelicidade humana, emerge a urgência e a necessidade de conversão que surge como adesão ao amor de Deus. 

O chamado à conversão pessoal é um dos núcleos da mensagem de Fátima, porém não se esgota na dimensão pessoal, ele é, também, apelo ao dom de si em prol da conversão dos outros e da conversão da própria história da humanidade. O pedido desafiador da Virgem aos pastorzinhos a fazerem sacrifícios e penitência pela conversão dos pecadores os convida a oferta de si em benefício dos demais.

Neste contexto o sacrifício é uma clara manifestação de amor a Deus e ao próximo. O amor, todavia, é a única razão do sacrifício e o sacrifício é uma exigência do amor. Sacrifício e penitência, portanto, só possuem sentido se motivados pelo amor, do contrario tornam-se masoquismo.

Falar em sacrifício e penitência, numa cultura hedonista que privilegia o prazer como máxima lei, causa assombro e, talvez, medo aos que, ao ouvirem estes termos, se remetem a época medieval. Contudo, é preciso ir além de uma compreensão reducionista e dualista que restringe a penitência e o sacrifício ao corpóreo.

Nossos tempos clamam por penitências que tenham um fruto efetivo e direcionado ao próximo. Numa época de tanta calúnia, falsidade, fofoca e maledicência, restringir-se a observar e julgar os próprios erros e limitações é, certamente, uma penitência que agrada a Deus e gera fraternidade com os demais. Num mundo em que se pode dizer e fazer tudo, silenciar e abster-se de criticar e condenar os outros é uma penitência que excita a compaixão e a compreensão. Num mundo desejoso e sedento de vida plena, porém desencontrado de sua verdadeira fonte e centrado, por causa da corrupção, em construir cisternas particulares, desfocar-se do secundário e do passageiro, privilegiando o outro e suas necessidades, é uma penitência que rompe com nosso exclusivismo e egoísmo. Numa sociedade de consumo, em que o supérfluo se torna indispensável, a renúncia e o jejum ganham sentido, pois possibilitam ao coração se abrir à misericórdia e à partilha espontânea e generosa com aqueles que menos têm.

Na mensagem de Fátima, a penitência que gera misericórdia nasce do olhar compassivo e misericordioso de Deus, entristecido e angustiado com o drama da história humana, ferida pelo egoísmo e pelo orgulho que produz guerra, dor e sofrimento. Fátima surge aí como eco do evangelho, como anúncio da Boa Nova da misericórdia que pode transformar os corações e a história através de um novo modo de ser e agir.

Publicada em 21/06/2017 às 08:04:59

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