Práxis Cristã: O conteúdo da ética evangélica

“Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11, 28)


No contexto do Evangelho de Jesus Cristo, têm-se ressaltado o núcleo da ética Cristã. Tal ética quer trazer a vinculação entre Deus e o homem, a partir do exemplo d’Aquele que soube ser perfeito Homem, sem deixar de ser Deus. Este núcleo trata-se de uma redução da ética àquilo que vincula chamado e resposta. Deus é quem realiza o chamado ao homem e, de forma interpelativa e comprometedora, exige uma resposta. Tal chamado refere-se, primeiramente, aquele mandato evangélico do “convertei-vos e crede” (Mc 1, 15). A conversão e a fé são a primeira ação de todo aquele que é introduzido ao cristianismo ou dele quer fazer-se conhecer como cristão.

O homem, ao aceitar e responder o chamado de Deus, necessita de uma mudança moral em seus atos, tanto que o chamado o interpela à uma prática radicalmente voltada a Jesus Cristo, suas ações e seus ensinamentos. Para tanto, o seguimento de Jesus submete, aquele que atende ao chamado, a uma metanóia a partir da caridade, levando à ação plena do amor na sua vida real.

“A participação do homem no banquete da vida, ou seja, a comunicação do homem com Deus, se dá na vida real (Mt 7, 21; 21, 28 – 32), em uma atitude ao mesmo tempo interior, una, radical e totalizadora. Esse é o aspecto essencial, talvez primordial, da mensagem ética de Jesus, sua clarividente revelação sobre o lugar exato onde se decide a vida do homem e sua resposta a Deus: o coração” (ORDUÑA, 1983, p. 127).

Esta transformação interior, como resposta ao chamado de Deus, requer não só uma mudança de espírito, mas, precisamente, uma mudança real de atitudes e ações diante de si mesmo, das pessoas e do mundo. Tal mudança conduz o convertido à nova vida. Diante desta nova vida, a relação com Deus exige uma vivência no mundo real sob determinados prismas: a conversão, a fé, o seguimento, a caridade, a renúncia, a liberdade e a vigilância. Basicamente o núcleo da ética evangélica constitui nestas 7 características que partem do coração para a relação consigo mesmo, com Deus e com o outro.

Primeiramente a postura do cristão deve ser a de um verdadeiro convertido. Viver a conversão é reconhecer-se participante da realidade, mas não pertencente dela, já que exige uma entrega total e radical de si a Deus.

Outra postura é a da fé. Todo aquele que se converte é porque, antes de tudo, acreditou. Para tanto, não se pode dar testemunho do que não se crê. A conversão e a fé levam aquele a quem é o modelo moral, e para isso, o seguimento de Jesus Cristo é a coluna mestra de toda a ação moral, fazendo na mesma medida do seu Amor de Filho e Irmão. Este chamado ao Seguimento de Jesus é feito de modo direto do próprio Jesus que, na medida em que chama, conhece, se aproxima, capacita e envia (cf. Lc 6, 12 – 16). 

Também, a Caridade é outra postura fundamental da moral evangélica. O amor Caritas supera todo o amor carnal e filial. O amor que Jesus Cristo nos coloca como mandamento é aquele transformador, amor das entranhas, que arde (cf. Lc 24, 32), que penetra e que faz sentir-se amado e leva a amar. Este é o amor de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Um amor que revela ao homem o verdadeiro Homem e o verdadeiro Deus.

Contudo, uma vivência autêntica do seguimento de Cristo implica numa renúncia, seja de bens, de pessoas ou de si mesmo. Deixar-se inundar do que é de Deus e renunciar a tudo o que é “mundano” é colocar-se a mercê de uma vida real santa, sem desprezar a realidade. Para tanto, Deus cria o mundo e o entrega aos homens como projeto de amor e salvação. Isto leva à verdadeira liberdade evangélica. Ser livre é dispor-se a Deus como ato puro e livre para responder ao chamado d’Ele à salvação. 

Enfim, uma atitude presente na vida do homem que renova até mesmo o sentido de sua vida é a vigilância evangélica. “Vigiai, pois, não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir” (Mt 25, 13). A vigilância atente ao chamado de Jesus em relação à espera de sua nova vinda. “A categoria evangélica da vigilância evoca o núcleo da vida humana segundo Deus Pai justamente na medida em que coloca cada momento presente como momento último” (ORDUÑA, 1983, p. 176).

A práxis cristã conduz à mudança moral. Esta mudança deve sempre aportar ao Cristo ressuscitado, libertador, vigilante, amoroso e inserido na sua realidade, transformando-a. A identidade do cristão é ser como Jesus Cristo, modelo fiel e perfeito.  


(ORDUÑA, R. Rincón (Dir.). Práxis cristã: Moral Fundamental. Edições Paulinas, São Paulo: 1983.)


Por Jean Rodrigo Pinheiro

Seminarista - 1º ano de Teologia

Publicada em 20/07/2017 às 09:35:54

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