Finados

Como todos os anos, prestamos homenagem com flores, coroas e velas, saudades e preces, lembranças e lágrimas, que procuram acordar o silêncio dos mortos.

Vivos e mortos, por alguns momentos, estão juntos.

Vivos e mortos se falam. 

Vivos e mortos se calam.

Vivos e mortos se procuram mutuamente e não conseguem encontrar-se.

Em todos os tempos, os vivos procuram manter-se perto dos mortos, sepultando-os junto aos lugares habitados.

No cemitério se misturam a gratidão e o respeito, a terra e o céu.

No cemitério é o ponto de chegada. Para onde convergem todos os caminhos.

No cemitério,ricos e pobres descansam juntos, simples e sábios, raças e cores, os santos e os que fugiram de Deus, cedo ou tarde, ali se encontrarão.

No cemitério é o lugar onde se fazem muitas perguntas: A maioria para a gente mesmo...

No cemitério se misturam a alegria de viver e o medo de morrer, tudo junto e tão perto.

No cemitério não estão mortos os que souberam amar. Por isso, o cemitério, hoje, assusta menos que a cidade dos vivos.

No cemitério as homenagens que prestamos, as saudações e os abraços, são um conforto para o mesmo fim que nos torna tão iguais.

Quem vamos encontrar do outro lado da morte?

Há quem diga: “Quando a gente morre acaba tudo. A outra vida não existe!”

Como deve ser terrível ver que a morte se aproxima e estar de mãos vazias. Podia ter feito o bem, podia ter ajudado e não pode mais voltar atrás. Perdido em si mesmo, no vazio, na solidão, longe de Deus, separado das pessoas, é a maior frustação humana.

Lembre-se disso: Ninguém pode comprar a Deus para escapar da morte. Podemos comprar a justiça e distorcer as leis, podemos comprar o silêncio de um escândalo e de um crime, podemos comprar os homens, mas não podemos comprar a eternidade.

É preferível escutar a Deus a viver como se Ele não existisse. 

Disse Jesus ao bom ladrão na cruz: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”(Lc 23,43). E aos seus amigos: “Eu vou preparar-vos um lugar...” (Jo 14,3). Dirá a todos os que acreditaram nele no juízo final: “Vinde benditos do meu Pai,... vinde para a felicidade preparada desde a criação do mundo” (Mt 25,34).

Ao atravessar um vale, é mais fácil se alguém está do outro lado e nos dá a mão. Quem eu gostaria encontrar ao lado de lá?

Às próprias flores que levamos aos túmulos falam da nossa esperança.

A nossa vida neste mundo é semelhante a uma criança no seio materno. Ela sente que está viva, que o lugar é aconchegante, protegido e quer ficar aí na sua confortável existência. Não sabe que aqui fora existe outro mundo maravilhoso.De repente, a criança nasce para este mundo, totalmente diferente. A saída do sei materno é para a criança a morte da sua existência anterior. E todas as etapas do crescimento humano são outras tantas mortes dolorosas pelas quais a gente tem que passar.Ninguém até hoje voltou ao seio materno e nem seria possível. Assim é a morte. É um novo nascimento doloroso e nós resistimos a ele porque estamos confortáveis, como no seio materno, onde mais que vivemos, dormimos.

Todos nos gostaríamos de encontrar um segredo, um remédio para escapar da morte. Mas, nem a ciência, nem a magia o podem fazer. 

Só a fé e a esperança. 

E a gente cala. 

A fé obedece. 

“Vigiai, pois não sabeis o dia, nem a hora” (Mt 25,13). 


Paz e Bem!

Frei Gilmar Gonçalves de Azevedo 

Pároco da Paróquia São Geraldo Magela - Ijuí

Publicada em 06/11/2014 às 06:17:43

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