Pastoral Presbiteral: "Os padres não tem que fazer tudo". Entrevista com Antonio José de Almeida

"Francisco é otipo que muitos sonhávamos e que, entre outras coisas, celebra com o povo eprega a partir do Evangelho do dia como um pároco. Alguns, aliás, o criticam:“é um pároco, não um papa!” Agindo assim, porém, leva o Evangelho a todos eacaba ensinando a muitos párocos a prioridade da evangelização no seuministério. Ele tem uma sensibilidade humana, comunitária e popularimpressionantes. E coragem", afirma Antonio José de Almeida, teólogo, ementrevisa publicada na revista Vida Nueva, concedida em janeiro deste ano de2015.

"Justamente o quefalta em tantos hierarcas, - continua - muitas vezes medrosos, excessivamenteprudentes (ou imprudentes?), sem audácia nem perspicácia. Veja você: precisaque o papa lhes diga: “apresentem propostas corajosas e concretas”.

Segundo ele,"seria trágico se a Igreja viesse a ordenar “viri probati” sem um fortesentido comunitário, sem vínculo concreto com uma comunidade concreta. O presbíteronão pode ser um ministro “universal” e “abstrato”, que exerce seu ministério emtodo e qualquer lugar porque nenhum lugar é “seu” lugar, dado que todos oslugares lhe são indiferentes. Do ponto de vista de una sadia teologia da Igrejalocal, isso é eclesiologicamente equivocado e eclesialmente desastroso".

Antonio José deAlmeida, nascido em Marapoama, SP, Brasil, em 1949. Presbítero da diocese deApucarana, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma,professor de Teologia Sistemática na Pontifícia Universidade Católica do Paraná(PUCPR), em Curitiba. Trabalha no campo da eclesiologia, especialmente o temados ministérios na Igreja a serviço da vida e da missão das comunidades.

Percorreu praticamentetodo o Brasil, dando cursos e fazendo palestras em muitas dioceses desde asegunda metade dos anos 80. Leciona também no Instituto Teológico-Pastoral paraa América Latina (ITEPAL), em Bogotá, Colômbia. Conhece de perto muitasexperiências de ministérios não-ordenados na América Latina, especialmente ados “Delegados da Palavra” iniciada pelo bispo canadense Marcel Gérin nadiocese de Choluteca, em Honduras, em 1966, e hoje presente em toda a AméricaCentral.

Você insiste em que aIgreja deve desenvolver com urgência novos ministérios. A que se refere?

Creio que a situaçãoseja diferente, dependendo dos países ou dos continentes. Nas Igrejas do Sul –penso, sobretudo, na América Latina e em algumas regiões da África – tivemos,nos dois decênios depois do Concílio, o nascimento e um crescimentoimpressionantes de novos ministérios. Um teólogo (na verdade, um grandebiblista) como Carlos Mesters falou, na época, de uma verdadeira “explosão deministérios”. Na Europa, parece-me que o fenômeno seja mais recente e tenhamenos visibilidade. Na maioria dos países europeus, é mais um desafio que umarealidade.

Concretamente, quaissão esses novos ministérios?

Quando se fala de novosministérios, se pensa em geral quase que automaticamente nos ministros eministras da sagrada comunhão. Não é por aí. Quando falamos em novosministérios, pensamos num leque muito amplo e diversificado de serviços quepossuem um perfil próprio, têm relação significativa com a missão da Igreja,são importantes para a vida da comunidade e sua projeção no mundo, são assumidoscomo responsabilidade própria e com estabilidade por leigos e leigas, ereconhecidos pela Igreja. Podem dar-se seja na dimensão profética, seja nadimensão cultual, seja na dimensão real-pastoral da vida e da missão da Igreja.

Temos, então, animadoresde grupos bíblicos e comunidades, passando por catequistas e equipes decelebração até responsáveis por pastorais sociais nos distintos níveiseclesiais – comunidades, paróquias, regiões pastorais, dioceses e além.

Seu trabalho não sereduz à universidade, mas, de alguma forma, é um trabalho de campo. Podedescrevê-lo melhor?

Atualmente, estou maisenvolvido com o trabalho intelectual. Sou professor de Teologia na PontifíciaUniversidade Católica do Paraná (PUCPR), em Curitiba. Leciono na graduação e napós-graduação (mestrado e doutorado). Estive, porém, na pastoral direta porquase 30 (trinta) anos, como pároco, assessor de várias comissões diocesanas e,até 2004, coordenador diocesano de ação evangelizadora (cerca de 12 anos).Tenho um ‘pé’ na pastoral direta e outro na universidade. Minha tese doutoralfoi sobre Novos ministérios na Igreja da América Latina. O diretor foi umteólogo espanhol, da Galícia, o jesuíta Félix Alejandro Pastor, professor naGregoriana e na PUC do Rio, onde faleceu há dois anos.

Que propostas pastoraisem diferentes lugares você conhece que lhe parecem particularmenteinteressantes para a Igreja de hoje em matéria de ministérios?

Aqui no Brasil, emprimeiro lugar, as comunidades. São mais de 100.000 (cem mil). Começaram nosanos anteriores ao Concílio e se fortaleceram com o evento conciliar e suaeclesiologia. Algumas dioceses as assumiram como prioridade pastoral hádécadas.

A diocese à qualpertenço, por exemplo, Apucarana, no Estado do Paraná, a partir de 1970,trabalhou pastoralmente inspirada num “Plano diocesano para uma pastoralparoquial renovada”. No ano passado, a CNBB publicou um documento parafortalecer e impulsionar este processo: “Comunidade de comunidades. Uma novaparóquia”.

No interior dascomunidades, um dos elementos mais importantes são os grupos de família (ounão), vizinhos ou não, dependendo do contexto social. Os nomes variam muito:são grupos de “reflexão”, de “ação e reflexão”, de “vivência”, de “base”,círculos bíblicos, etc.

Na paróquia em queresido atualmente, por exemplo, há 23 (vinte e três) comunidades, mais de 80(oitenta) grupos chamados de “reflexão”, que, na realidade, são grupos bíblicosem que, a cada quinze dias, se lê a Bíblia em articulação com a vida, se fazrevisão de vida, planejamento de ações concretas tanto em âmbito eclesial comoda sociedade civil; alguns desses grupos, com mais de 40 (quarenta) anos,passaram por mudanças de geração, e continuam. A lógica é esta: onde hácomunidade eclesial, necessariamente há ministérios!

Diferentes modalidadesde grupos e/ou de comunidades são contrapostas ou mutuamente excludentes, oupodem conviver?

Depende. Há que se tere partir de um horizonte e de algumas referências básicas comuns.  Vejo, por exemplo, que Pagola está motivandoe impulsionando, com excelentes argumentos – penso no seu livro “Volver aJesús” – algo muito parecido com o que fazemos no Brasil há anos. Gosto muitoda cristologia profundamente existencial, espiritual e comprometida de Pagolae, agora, me fascina sua maneira de propor o surgimento de grupos que se reúnamespontaneamente, tomem nas próprias mãos a Palavra de Deus para ouvi-la em“primeira mão” (como ele diz), pô-la em contato com a vida, com suasaspirações, dúvidas, perguntas, em busca de caminhos para um mundo mais humano.

Qual seria o fiocondutor eclesiológico que daria unidade interna a essas propostas?

É fundamentalmente aeclesiologia do povo de Deus no sentido que lhe deu o Concílio. Povo chamadopor Deus. Povo libre e responsável. Povo a serviço do desígnio de Deus nahistória. Povo de irmãos, iguais e diferentes ao mesmo tempo. Povo no qual oque é comum (a condição de cristãos e cristãs) garante a todos igualdade dedignidade e de missão. Povo que põe raízes nas diferentes culturas e é capaz deentrar em diálogo com elas. Povo todo ele enriquecido por dons, carismas eserviços e/ou ministérios diferentes em vista da missão. Não são títulos decapítulos de um livro; são minhas mais profundas convicções e estão muito bemexplicitadas num importante documento da CNBB, do ano de 1999, sobre “Missão eministérios dos cristãos leigos e leigas”, o famoso Documento 62, muitas vezesreeditado, ponto de referência para essa matéria no Brasil.

Você escreveu umaintrodução teológica ao livro do bispo emérito de Aliwal (África do Sul), FritzLobinger “Equipes de ministros ordenados”. Quais elementos ressaltaria daproposta atual de Lobinger sobre dois tipos de presbíteros que poderiamcoexistir e colaborar numa mesma Igreja local?

Antes do livro “Equipesde ministros ordenados. Uma solução para comunidades sem eucaristia”, queescrevemos juntos e foi publicado no Brasil (Paulus) e na Espanha (Herder),Lobinger publicou no Brasil outro livro: “Padres para amanhã” (Priests fortomorrow). A editora pediu-me uma introdução. O livro me encantou de talmaneira que elaborei uma ‘pequena introdução’ de umas setenta páginas. Semnenhuma intenção arqueológica, o que Lobinger propõe em termos de estruturapastoral básica e de ministérios é, em seus traços essenciais, o que houve naIgreja cristã nos primeiros séculos: comunidades de dimensões humanas; animadaspor ministros e ministras próprios; um processo de formação cristã eministerial permanente, com o acompanhamento de presbíteros destacados paraeste fim pela diocese; a celebração da eucaristia como plenitude sacramental darealização da Igreja em missão em um lugar. O que falta em muitíssimascomunidades – só no Brasil são mais de 70.000 as comunidades sem possibilidadede celebração regular da Eucaristia – são, como elemento necessário de um amploe articulado processo, ministros ordenados como presbíteros para presidira  eucaristia em sua comunidade.

 

A única coisa que essesministros ordenados fariam na comunidade seria presidir à celebração daeucaristia? Seriam padres celebradores ou “misseiros” ou “altaristas”, comoficou pejorativamente conhecido certo tipo de sacerdotes na Idade Média?

Absolutamente. A lógicana Igreja antiga – isso foi estudado particularmente por Hervé Legrand, umdominicano francês, grande eclesiólogo, discípulo de Congar - era a seguinte:aquele que preside à comunidade preside à eucaristia da comunidade. Acomunidade o escolhia, os bispos o ordenavam, ele se tornava presidente-pastordaquela comunidade e, por conseguinte, da sua celebração da eucaristia. Acelebração da eucaristia pela comunidade é o momento fonte e cume de sua vidacristã e eclesial. (Falamos de “celebração” da eucaristia, com toda a suariqueza de significado e de conteúdo, não simplesmente da reserva eucarística!)Não pode ser algo tão raro que, apesar de toda a sua valorização teórica, comofaz, por exemplo, o Documento de Aparecida, se celebra, em tantas comunidades,só uma vez por ano ou a cada dois, três anos...

Lobinger pensa assim?

Claro. Além disso,muito concretamente, ele propõe que os ministros sejam da mesma comunidade, quesejam escolhidos diretamente por sua comunidade, que não seja um só porcomunidade, mas uma pequena equipe (dois ou três), podendo ser solteiros oucasados, e que continuem inseridos na vida civil, com sua família, seu trabalhoprofissional, sua vida normal. Dado que a comunidade é pequena, suaparticipação nela será também mais próxima, constante, quente, porém seuserviço frente a ela como ministro ordenado seria normalmente “part-time”. Omodelo não é a grande paróquia, territorial, anônima, sacral, totalmentecentralizada no pároco e em tudo dependente dele, mas a comunidade “à medida doser humano” (a expressão é de Schillebeeckx), de pessoas que se conhecem, umacomunidade aberta, acolhedora, misericordiosa, participativa, missionária...

No Concílio VaticanoII, falou-se – ainda que timidamente – dos “viri probati” como uma alternativaà falta de presbíteros em muitos lugares. O que você pensa sobre esta alternativano contexto da Igreja atual?

O Concílio falou de“viri probati” em relação ao ministério diaconal. O Concilio não discutiu otema do celibato sacerdotal. Paulo VI não considerava conveniente que oConcilio tratasse do celibato. (Ele abordou pessoalmente o tema na encíclicaSacerdotalis coelibatus em 1967). Todavia, Lobinger não pensa em “viri probati”como candidatos a este novo modelo de presbítero. Ao contrário, faz questão dedeixar claro que essa não é a sua proposta. Lobinger pensa em “communitatesprobatae” que devem chegar a ser “communitates plenae”, que possam elas mesmascelebrar a eucaristia presididas por seus ministros próprios.

Neste sentido, aproposta de Lobinger não é para todas aquelas situações que levam o nome de“comunidade”; ele pensa em comunidades que preencham requisitos bem precisos. Ahipótese de “viri probati”, portanto, Lobinger a descarta com todas as letras.Seu ponto de partida não é a escassez de clero, a abolição do celibato, aordenação de mais sacerdotes para manter o sistema funcionando. Seu enfoque é acomunidade eclesial, a caminhada comunitária, sua consistência evangélica, seuserviço aos pobres, a legítima autonomia das comunidades, a multiplicidade deministérios para a vida e a missão da Igreja, a centralidade da Eucaristia paraa vida cristã e a construção de autênticas comunidades cristãs a serviço doReino no mundo.

É importante que osbispos sejam corajosos e apresentem propostas ousadas a Roma ou deveriamesperar que  Roma modifique certasnormas?

Francisco é o tipo quemuitos sonhávamos e que, entre outras coisas, celebra com o povo e prega apartir do Evangelho do dia como um pároco. Alguns, aliás, o criticam: “é umpároco, não um papa!” Agindo assim, porém, leva o Evangelho a todos e acabaensinando a muitos párocos a prioridade da evangelização no seu ministério. Eletem uma sensibilidade humana, comunitária e popular impressionantes. E coragem.Justamente o que falta em tantos hierarcas, muitas vezes medrosos,excessivamente prudentes (ou imprudentes?), sem audácia nem perspicácia. Vejavocê: precisa que o papa lhes diga: “apresentem propostas corajosas econcretas”. Na Conferência de Aparecida, em 2007, um expressivo número debispos queriam tratar este tema; abriram-se numa reunião com um representante pontifício, e este prestigioso senhorlhes teria respondido: “Este não é o lugar apropriado para isso. Os tempos nãoestão maduros!” Os tempos nunca estariam maduros para quem não sabe ler seussinais, os sinais de Deus, que são sempre novos e primaveris.

Em seu livro “Novosministérios. A necessidade de um salto à frente”, publicado no ano passado noBrasil (Paulinas) e agora também na Espanha (Herder), você fala de novosministérios, não só do ministério presbiteral. Para que aspectos chamaria a atençãosobre a necessidade de dar um passo à frente?

Há um ponto de chegada,que é a vida de dezenas de milhares de comunidades, com seu dinamismo, seusministérios, seus projetos. Chegamos, porém, a um ponto que clama pelo passonatural seguinte: não só o reconhecimento, a valorização e o impulso efetivo àscomunidades e a seus ministérios (atitudes que ainda faltam em muitos lugarese, onde está presente, nem sempre são suficientes e coerentes), mas aplenificação dessas comunidades, dotando-as de ministros ordenados própriospara sua presidência eclesial e eucarística. A situação anômala atual dedezenas de milhares sem poder celebrar a Eucaristia remediada pela Celebraçãoda Palavra (que certamente já é um bem) não pode nos levar a perda ou aoenfraquecimento da consciência de que “a eucaristia faz a Igreja”. O vínculocomunidade-eucaristia é essencial.

Igualmente, ainda queem outro nível, o vínculo entre ministro e comunidade também é essencial. Nãose trata só de um vínculo sacramental e canônico, mas existencial, direto,muito concreto. Seria trágico se a Igreja viesse a ordenar “viri probati” semum forte sentido comunitário, sem vínculo concreto com uma comunidade concreta.O presbítero não pode ser um ministro “universal” e “abstrato”, que exerce seu ministérioem todo e qualquer lugar porque nenhum lugar é “seu” lugar, dado que todos oslugares lhe são indiferentes. Do ponto de vista de una sadia teologia da Igrejalocal, isso é eclesiologicamente equivocado e eclesialmente desastroso.

Falando agora dasituação nova que se criaria na Igreja com este novo perfil de presbítero (aolado do atual). Que ganho traria à Igreja em seu conjunto um duplo presbiteradoatuando em colaboração

Lobinger fala de doistipos de presbíteros: “diocesanos” e “comunitários”.  Na realidade, não emprega a expressão“presbítero comunitário”. Prefere “ministros ordenados”, embora saiba que estaexpressão inclua também os bispos e os diáconos. É que, com a expressão“ministros ordenados”, ele quer deixar claro que não pensa em comunidadescontestatárias ou em ministérios “selvagens”, mas devidamente – quer dizer –sacramentalmente “ordenados”. Já presbíteros “diocesanos” seriam os presbíterosque conhecemos atualmente – formados em seminário, que estudaram filosofia eteologia por longos anos, celibatários, com dedicação exclusiva etc.

No novo modelo, osatuais presbíteros não só não seriam dispensados, mas enormemente valorizados,e passariam a desempenhar una nova função “quase episcopal” – como dizia DomValfredo Tepe, um bispo franciscano alemão que passou quase toda a sua vida noBrasil e se envolveu, de várias maneiras, com essa questão dos ministérios–  uma função de  motivação, animação, acompanhamento, formaçãocontinuada, assessoria e articulação entre as comunidades e entre essas e seusministros.

Quais seriam algunsriscos que teriam que ser levados em conta para prevenir eventuais problemas?

Vejo, sobretudo, três:o “delegacionismo”, o clericalismo e o “liturgismo”, se você me permite acriação de alguns neologismos.

O “delegacionismo”consistiria em delegar ao ministro (no caso, o presbítero comunitário) o que éresponsabilidade de todos: “você é o nosso presidente, faça tudo, que nós oapoiamos”. É o que muitos pais fazem com os professores dos filhos nas escolas,que muitos cidadãos fazem com os políticos que elegem, que muita gente faz comas lideranças da Igreja.

Clericalismo é um termomais conhecido. Há leigos e leigas que, quando ocupam uma posição particular nacomunidade, reproduzem comportamentos típicos do clero clássico e… nem tanto;reproduzem algo do clericalismo. Uma vez ordenados, o risco de fazê-lo com“autoridade” é ainda mais forte: “sou o ministro ordenado presbítero destainsignificante comunidade [não dizem, talvez nem pensem, mas agem assim por algumimpulso inconsciente], recebi o sacramento da ordem, sou sacerdote, com poderde ordem e jurisdição, “alter Christus”, uma entidade quase divina… aqui, quemmanda (em tudo e em todos) sou eu!”

O que quero dizer com“liturgismo”? A liturgia, sobretudo a celebração eucarística, é fonte e cume detoda a vida e ação da Igreja. No entanto, para sê-lo efetivamente, tem queestar conectada com toda a vida e atividades da comunidade. Claro que háministérios litúrgicos, porém quem os assume não pode se restringir à liturgia,mas participar de toda a vida da comunidade, fazendo com que esta se expressesacramentalmente na celebração e a celebração fortaleça sua vida e missão.

O “liturgismo” cria umafratura entre culto e vida, entre liturgia e missão, entre Reino e mundo, emúltima análise, entre sagrado e profano.

Crê que muitosministérios se cultualizaram excessivamente e se tenha perdido de vista outrasperspectivas e tarefas pastorais?

Infelizmente, sim. Oculto é o mais visível na Igreja e também nas comunidades. Confere status aosque o conduzem, que se veem cercados por uma aura sobrenatural. E é o maisfácil. “Administrar” um sacramento - com um pouco de “treinamento” – ématerialmente fácil. Também entre nós, no Brasil, temos essa deformação. Bastadar uma olhada na distribuição dos ministros nos diversos ministérios: centenasde ministros da distribuição da comunhão numa paróquia razoavelmente grande;algumas dezenas de catequistas; dá para contar nos dedos de uma mão osengajados nas pastorais sociais. Esses dados são sintomas de problemas maisprofundos.

A Igreja no Brasilseria uma Igreja emblemática para a implementação de mudanças nos ministériosque alavancariam outras iniciativas na Igreja universal?

Não se deve idealizarninguém na Igreja nem Igreja alguma no mundo. No Brasil, temos caminhado muito,sobretudo nas primeiras décadas depois do Concílio, mas hoje, por uma série defatores que outros poderiam analisar melhor que eu, experimentamos uma Igrejamenos viva, sob vários aspectos cansada, menos vibrante, menos comprometida, àsvezes acomodada no seu canto. Quando Aparecida fala de “Igreja missionária” oude “conversão pastoral”, essas palavras se dirigem também a nós, à Igreja doBrasil.

Em matéria de novosministérios, o momento carismático (no sentido de Max Weber) passou; desdePuebla (1979), estamos num momento de institucionalização. A Conferência deSanto Domingo, com todas as suas limitações, confirmou substancialmente o quehaviam colocado as Conferências anteriores, porém num tom quase burocrático eprotocolar. Apesar disso, claro que há também bispos que se dão conta dosdesafios com mais profundidade e enxergam mais longe. Daí se pode esperar quealguma coisa nova se mova.

Na Igreja do Brasil sepoderia dizer que se estão dando passos nesta direção? Há reuniões ouiniciativas para refletir sobre o tema?

Lobinger esteve algumasvezes no Brasil. A título privado. Sem alarde. Encontrou-se com alguns gruposde bispos. Seus livros são conhecidos, em alguma medida, por boa parte doepiscopado.  Ultimamente, depois doencontro do bispo Erwin Kräutler, do Xingu, PA, com o papa Francisco, o temafoi colocado em um momento da última [penúltima – NDT] Assembleia Geral da CNBB(abril de 2014) e se aprovou a constituição de uma comissão para refletir sobrea questão de como encontrar respostas para a situação das comunidades semcelebração regular da eucaristia.

São membros destacomissão Dom Raymundo Damasceno de Assis, [à época] presidente da CNBB, DomClaudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, Dom Walmor de Oliveira,arcebispo de Belo Horizonte, e Dom Sergio Eduardo Castriani, arcebispo deManaus. Estava programada uma reunião na sede da CNBB em Brasília para o mês denovembro (2014), porém teve que ser cancelada porque dois membros não poderiam estarpresentes. A comissão vai se reunir em fevereiro [2015], dois meses antes dapróxima assembleia geral da CNBB, quando suas propostas deverão serapresentadas a todo o episcopado e discutidas.

Que passos serianecessário dar, teológica e pastoralmente falando, para caminhar na direção dea Igreja enriquecer-se com todo o potencial das mulheres na Igreja e construir,assim, uma Igreja mais fecunda?

Vou me ater ao aspectoministerial da questão. As comunidades não viveriam sem as mulheres. Elasrespondem pela maior parte dos serviços e atividades comunitárias. A catequese,por exemplo, está praticamente toda na mão das mulheres. No Brasil, temos cercade 1.000.000 (um milhão) de catequistas. Isso é reconhecido e valorizado. Dissose fala em documentos do episcopado. Muitíssimas mulheres atuam nas equipes deliturgia, embora oficialmente não possam ser “instituídas” (este é o termotécnico desde a Tradição Apostólica de Santo Hipólito) leitoras e acólitas.

Nesse particular, omínimo que teria que ser feito é revisar o cânon 230 do Código de DireitoCanônico, que, na prática, não é respeitado, uma vez que, pelo menos entre nósas mulheres são leitoras e acólitas habitualmente (não só “ad casum”) nas maisdiversas celebrações. Na Cúria romana, muitas funções desempenhadas porclérigos – às vezes, bispos, arcebispos e cardeais – poderiam ser exercidas porleigos e leigas. A mesma coisa nas Cúrias diocesanas. O Código de DireitoCanónico, em relação a um grande número de ofícios eclesiais, está muito àfrente de nossa prática. Lembro-me, por exemplo, de um estudo muitoesclarecedor de Gustave Thils a Porespeito publicado algum tempo depois dapublicação do novo Código.

Uma mudançasignificativa na questão ministerial pode aproximar-nos de outras Igrejascristãs? Podemos aprender algo delas neste campo?

O papa Francisco jádisse que a porta para a ordenação sacerdotal de mulheres está fechada. Issomantém-nos próximos aos ortodoxos, mas nos distancia dos anglicanos eprotestantes em geral. Porém não estaria fechada a porta para se discutir, porexemplo, o diaconato feminino.  A questãoaqui não é só a possibilidade teológica, mas sobretudo o seu significado noconjunto da ministerialidade da Igreja e seu perfil pastoral (ou seus  perfis pastorais).

Que a maior parte dosdiáconos se dediquem só ou quase à dimensão litúrgica de seu ministério é sinalde que há um problema: Não se acomodam no cultual porque a diaconia da palavraainda não é tão sentida como nos meios evangélicos, além de a diaconia dapalavra e a diaconia da caridade serem humana e ‘profissionalmente’ maisexigentes? Não estão fazendo (claro que um ministério não deve ser pensado sócomo um “fazer”) o que leigas e leigos também podem fazer e de fato já fazem?Não estariam suprindo precariamente a falta de sacerdotes?

Pessoalmente, penso queseria uma decisão equivocada ordenar indiscriminadamente (estou dizendo“indiscriminadamente”) os diáconos como presbíteros. Porém me parece quepoderia ser um bom caminho a ordenação presbiteral de alguns dos diáconos comuma boa história de compromisso comunitário, uma boa vivência familiar, um bomtestemunho do Evangelho na vida ordinária, em sua profissão, na vida civil. Euolharia com muita atenção, por exemplo, para a experiência dos diáconos índiosda diocese de San Cristóbal de Las Casas, no México. Entre os leigos, aexperiência dos “Delegados da Palavra” que está se aproximando dos 50 anos emHonduras e em outros países da América Central me parece também merecedora deuma atenção muito particular.

Texto consultado nainternet: IU – 01/06/15


A pedido do Pe. Márcio Laufer



Publicada em 03/06/2015 às 08:27:04

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