Leitura Orante (lectio divina)

Toda a vida da Igreja e sua ação evangelizadora é animada pela palavra de Deus. A Igreja do Brasil orienta o uso do método da Leitura Orante para nos ajudar na aproximação da Palavra de Deus, unindo fé e vida.

Há muitas maneiras de ler a Bíblia. Podemos ler os textos bíblicos para aprender mais sobre a história do povo, seus costumes. É muito comum também lermos a bíblia em função do ministério, buscando nela o que ensinar na catequese, na homilia ou na reflexão. 

O Documento 100 da CNBB no número 271 diz: “Sendo Casa da Palavra, a paróquia há de promover uma nova evangelização... A Palavra é saboreada na experiência comunitária da Leitura Orante”. 

TERMINOLOGIA

A expressão leitura orante (lectio divina) significa: leitura divina, leitura orante, leitura lenta e atenta da Palavra de Deus. É uma maneira orante de fazer a leitura da Bíblia, dialogando com Deus a partir de sua Palavra. A leitura orante da Bíblia para ser bem feita, exigeatenção, disciplina, assiduidade, humildade, gratuidade e prontidão para acatar os ensinamentos divinos. E ainda, atenção ao método proposto (leitura, meditação, oração e contemplação).

A leitura orante não é estudo e nem experiência extraordinária. É um modo orante de ler a Bíblia, para “escutar o que Deus tem a lhe dizer, conhecer a sua vontade e viver melhor o evangelho de Jesus Cristo” (Frei Carlos Mesters).

É colocar-se a disposição de Deus: “Fala Senhor que teu servo escuta” (1 Sm 3,10) ou “Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. (Lc 1,38).


1. Conhecendo a história

Para os judeus, é a obediência à Palavra de Deus que garante o cumprimento da promessa: bênção, terra e descendência. Israel é convidado a ouvir o Senhor e amá-lo, obedecendo e praticando todos os seus estatutos (Dt 6,4, Dt 30,11 - 14; Ex 19,8; Ex 24,7). A Palavra era para ser meditada, rezada e ensinada, estando no coração e na mente. Deveria ser escrita na entrada das casas para que o povo nunca deixasse de meditar. (Dt 6,1 - 13). Os judeus entendiam que a Torá era a presença de Deus no mundo e que deveria ser experimentada pela oração, meditação e contemplação (Ne 8,1 - 12), pois é através da meditação que o povo descobre a vontade de Deus em seu dia-a-dia. (Js 1,8; Sl 1,2).

O Novo Testamento relata a relação profunda de Jesus com as Sagradas Escrituras, a tal ponto de assumir a Palavra de Deus em sua vida e missão. Para ele a Palavra tem que ser atualizada no hoje da história (Sl 21(22); Lc 4,16 - 30; 24,13 - 35; At 8,26 - 40). A Igreja primitiva, a exemplo de Jesus, continuou a rezar e a praticar a Palavra, e ainda, pela ação do Espírito Santo, foi capaz de interpretá-la e reescrevê-la a partir de Jesus Cristo; a Palavra Encarnada, (Jo 1,14), Nele se cumpre toda a escritura (Lc 4,20).

Os santos Padres, dentre eles se destaca Orígenes, assumiram a prática da Igreja primitiva, de fazer uma leitura orante da Palavra, e assim, difundiram aos fiéis. Para eles “a leitura divina supõe escuta e resposta”. Outro grupo importante pela prática da leitura orante são os monges. Eram assíduos na meditação, vivendo na intimidade com Deus por meio da Palavra.  

Infelizmente, ouve um período, a partir do século VIII, em que o povo não teve mais acesso mais Palavra, passando a conhecê-la quase que unicamente por meio da História e das pinturas dos vitrais das Igrejas. Entretanto, a Bíblia continuava sendo lida e meditada nos monteiros.  Entretanto, a leitura orante, como é conhecida hoje, com seus quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação, foi sistematizada no século XII, por um monge Cartuxo, chamado Guido II da ordem cisterciense.

Lamentavelmente, na Idade Moderna, aconteceu outra crise de ruptura com a Bíblia, tudo passa a ser interpretado à luz da razão, ou de modo oposto, no fundamentalismo e sentimentalismo. Porém, Deus que jamais abandona o seu Povo, por meio de seu Espírito Santo, mobilizou a Igreja através do Vaticano II para que retornasse as Sagradas Escrituras (DV 21 - 26). Daí para cá, a Igreja tem conclamado os fiéis para se aproximarem mais da Bíblia, conforme recomendou a Conferência de Aparecida: “entre as muitas formas de se aproximar da Sagrada Escritura, existe uma privilegiada à qual somos convidados: a lectio divina ou exercício da leitura orante da Sagrada Escritura. Essa leitura bem praticada conduz ao encontro de Jesus Mestre” (DA 249). Também o Sínodo da Palavra lembra aos fiéis a importância de desenvolverem uma intima relação com a Palavra. Cada Igreja particular tem se empenhado em realizar atividades que concretizem esse projeto.


Método:

Antes de tudo, colocar-se à luz do Espírito de Deus e pedir sua ajuda.


Depois, seguir os quatro degraus da Leitura Orante da Bíblia:

Leitura, Meditação, Oração, Contemplação.

1º - Leitura

 O que o texto diz?

A leitura é o primeiro passo, ou degrau da Leitura Orante da Bíblia. Ler na Bíblia, reler, tornar a ler, cada vez mais, conhecer bem o que está escrito, até assimilar o próprio texto; respeitar o texto tal como ele é, sem interpretações precipitadas, sem achar que já conhece esse texto. A Sagrada Escritura é como uma fonte de água. A cada instante brota uma água nova que não é a mesma água do segundo anterior. É como um copo de água que você bebe. Só se bebe aquele copo d’água uma vez na vida. Assim cremos que seja a Palavra de Deus é sempre nova e atual. Ao ler o texto da Escritura, fazê-lo com o respeito de quem se encontra pela primeira vez. Estar atento para as palavras, as repetições, o jeito como está escrito, quem aparece no texto, em que lugar, o que fazem, o que falam... Muitas vezes precisaremos lançar mão de algum subsídio que ajude a entender o texto e o seu contexto histórico/social; usar estudos, dicionários bíblicos, livros, a ciência, a teologia e outros meios. De acordo com Dt 30,14 -“A Palavra está muito perto de ti: na tua boca” - é chegar perto da Palavra de Deus; a Palavra está na boca. Aqui descobrimos o que o texto diz em si mesmo.


2º - Meditação

O que Deus está me falando?

A meditação é o segundo degrau. Depois de ouvir e ler a Sagrada Escritura, de assimilá-la criativa e ativamente, vamos usar a imaginação, palavras, a repetição mental ou oral de uma palavra, uma frase, um versículo. Repetir de memória, com a boca, o que foi lido e compreendido. Vamos ruminar até que, da boca e da cabeça, passe para o coração. Já não é mais só o que o texto diz, mas o que esta palavra está dizendo hoje, o que me diz concretamente dentro da realidade em que estamos vivendo. O que Deus falou no passado e o que está falando hoje, através deste texto? É uma forma simples de meditação, um jeito de saborear o texto com cores e cheiros de hoje, da nossa realidade. “A Palavra está muito perto de ti: na tua boca e no teu coração”.

Questionamentos: O que o texto me diz? (Ruminar, trazer o texto para a própria vida e a realidade pessoal e social.)


3º - Oração

O que o texto me faz dizer a Deus?

A meditação nos faz subir o terceiro degrau. A leitura e meditação se transformam em um encontro mais direto, íntimo e pessoal com Deus. Entramos em diálogo, em comunhão amorosa com Deus. Respondemos a Deus, pedimos que nos ajude a praticar o que a sua Palavra nos pede. O texto bíblico e a realidade de hoje nos motivam a rezar. O terceiro passo é a oração pessoal que pode desabrochar em oração comunitária, expressão espontânea de nossas convicções e sentimentos mais profundos. “A Palavra está muito perto de ti: ... no teu coração”.

(Rezar – suplicar, louvar, dialogar com Deus, orar com um salmo...)


4º - Contemplação

Qual o meu novo olhar? A partir da Palavra.

É o transbordamento do coração em ação transformadora. “Para que ponhas em prática” (Dt 30,14). Contemplar não é algo intelectual, que se passa na cabeça, mas é um agir novo que envolve todo nosso ser. É contemplativa a pessoa que tem o “jeito novo” de ser, viver, ver e assumir a vida, conforme o projeto daquele que é o nosso único Mestre e que nos diz: “Vocês são todos irmãos” (Mt 23,8). A Leitura Orante se torna uma atitude continuada no dia-a-dia por uma ação transformadora – pessoal, comunitária, social, mundial.O queDeus,  através desse texto me leva a fazer? Formular um compromisso de vida.


Pe. Magnus Camargo

Coordenador Diocesano de Pastoral

Pároco da Paróquia de Fátima

Publicada em 21/07/2015 às 06:46:04

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