O lugar do ser humano na criação

Dom Adelar Baruffi

Bispo de Cruz Alta


Um tema que perpassa toda a Carta Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, é que todos os seres estão interligados e que “cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua” (LS 84). Toda a criação, junto com o ser humano, está orientada para o louvor de Deus.Deste modo, não se pode falar de uma ecologia ambiental sem falar da ecologia social e humana. “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.” (LS 139). Estamos incluídos na natureza e somos parte dela. Assim, as causas dos males existentes no meio ambiente têm suas raízes no modo como a sociedade está organizada e como o ser humano interage com a natureza.

Por isso, faz-se necessário uma correta compreensão do ser humano e seu lugar na criação. O ser humano, essencialmente relacional, constitui-se numa tríplice relação: com Deus, com os semelhantes e com a natureza. “Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia.” (LS 118). Quais as características desta antropologia?

A relação fundamental, base de todas as outras, é a compreensão do ser humano como criatura, diante do Criador. Ele é feito do barro, do pó da terra, segundo o relato da Criação (cf. Gn 2,7). Compartilha com todos os outros seres o ser criatura. O “antropocentrismo moderno” rompeu esta harmonia, quando o homem atribuiu a si mesmo sua autodeterminação. “Se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência, porque em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba por provocar a revolta da natureza.” (LS 117). 

Ao invés de colaborador de Deus, com a missão de “guardar e cultivar o jardim” (Gn 2,15), o ser humano compreendeu-se como senhor e conquistador da natureza e dos demais seres humanos. Está aí posta a base para todo tipo de degradação das relações humanas, sociais e ambientais.

Rompendo a relação com o Criador, além de distorcer a correta relação com a natureza, também se corrompem as relações com os outros. Fecha-se em sua “autorreferencialidade”, buscando unicamente seu interesse próprio, vendo o outro como um obstáculo a vencer, a superar, a submeter. Submete e descarta tudo o que foge aos seus interesses. Perde o sentido original da complementariedade e do respeito pelo outro como fim e não como meio. Esta é a lógica da exploração dos mais fracos, dos que sobram. “A abertura a um «tu» capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana” (LS 119), diz o Papa.

Compreendemos, então, que o Papa insista que “não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais” (LS 119). Estas relações estão doentes e devem ser sanadas.A mera substituição de um “antropocentrismo” por um “biocentrismo” não devolveria ao ser humano seu lugar e sua responsabilidade nesta “casa comum”. “Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus”(LS119).


Publicada em 21/07/2015 às 06:49:49

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