Deixar-se formar pela Palavra

Dom Adelar Baruffi

Bispo de Cruz Alta

 

            “Faça-se em mim segundo a tuaPalavra” (Lc 1,38). Estas palavras de Maria ao anjo Gabriel servem de motivaçãopara iniciarmos o mês da Bíblia.

 

Fixar o olhar em Jesuse abrir os ouvidos

            Jesus Cristo é a Palavra. Por isso,a Escritura nos relata que, em Nazaré, Jesus lê o profeta e, depois, fecha olivro e diz: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes deouvir” (Lc 4,21). E “todos tinham os olhos fixos nele” (Lc 4,20). Ele é ocentro das Escrituras, é a Palavra enviada ao mundo. Os olhos estavam abertos,mas os ouvidos permaneciam fechados a Ele, à Palavra. Estas duas atitudes devemandar juntas. Antes de iniciar a parábola do semeador, Jesus convida: “Escutem”(Mc 4,3). Esta escuta atenta requer o silêncio, o recolhimento interior, quepossibilita entrar em comunhão, em diálogo, com Aquele sobre o qual pousa nossoolhar. Sem o silêncio não é possível a escuta, a acolhida e o diálogo.

 

O bom dia de Deus

            A cada dia, Deus nos saúda com a“Palavra do dia”. Assim como, a cada dia, Deus providenciou o alimento para seupovo na travessia do deserto, o maná, todos os dias ele nos dirige a suaPalavra. É o alimento do dia. A Palavra do dia abre e acompanha o caminhar dodia. É o ponto de referência de cada dia da vida. Iniciamos o dia dizendo comoo profeta: “Cada manhã, o Senhor desperta o meu ouvido, para eu ouvir comodiscípulo.” (Is 50,4). Ela é cotidiana e deve ser o primeiro diálogo do dia comDeus. A Palavra abre a jornada e precede todos os compromissos, agenda,preocupações e pensamentos que fazem parte do caminhar cotidiano.

 

Guardar a Palavra

            Acolher a Palavra, para serguardada e conservada ao longo de todo o dia. Ela está aí presente como luz queilumina o agir. Nem sempre ela é totalmente compreendida, não importa. “Seconservares e guardares a Palavra... de modo que ela desça à profundeza da tuaalma e se transfunda nos teus afetos e nos teus costumes..., não há dúvida queserás conservado por ela”, diz São Bernardo.

Nasce, assim, uma familiaridade com aEscritura, pois ela se torna critério de julgamento de nossas ações, de nossasescolhas. Cada projeto passa através dela, pois ela é “útil para ensinar, pararefutar, para corrigir e para educar na justiça.” (2Tm 4,16). A docilidade àPalavra faz com que ela se torne “critério de discernimento em geral e ponto dereferência específica das próprias escolhas.” (AmedeoCencini).  Trata-se de apostar na Palavra, como fezMaria ou Pedro, naquele dia do lago. Poderíamos imaginar assim o pensamento dePedro: “Senhor, faço esta escolha apoiando-me somente em tua Palavra, nãoporque uma lógica humana poderia levar-me nesta direção, mas porque me pareceque tu me pedes isto através da tua Palavra.”

 

Deixar-se ler pelaPalavra

            “Não somos nós que lemos a Palavrade Deus, mas é a Palavra de Deus que nos lê, não somos nós que a interpretamos,mas é ela que nos examina.” (Amedeo Cencini). A Palavra fala de Deus, sim, masfala também de nós, de nossa vida. Revela a verdade de cada um de nós, indoalém da própria sinceridade. Fala de nossa vida e de nossas escolhas, daquiloque dificilmente temos acesso em nós mesmos, a não ser por este caminho decontemplação. Penetra no profundo de nosso ser (cf. Hb 4,12).

 

Enfim, “temos que ler e reler oEvangelho sem parar, de maneira que tenhamos o espírito, os fatos, as palavrase os pensamentos de Jesus diante de nós, a fim de que um dia possamos pensar, falare atuar como ele o fez”.  (Carlos deFoucauld).

Publicada em 03/09/2015 às 08:56:50

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