Antes de pensar a ecologia, é necessário um pensamento ecológico

Por: Pe. Eliseu Lucas de Oliveira



O último documento do Papa Francisco tem como subtítulo 'sobre o cuidado da casa comum'.  Algumas pessoas pensam que a Igreja, através do seu Magistério, também está entrando na moda de falar do cuidado com o 'meio ambiente', um tema que surge na chamada pós-modernidade e que muitos críticos até já falaram que seria uma forma de desviar das questões sociais urgentes. Claro que não é esse o caminho da Encíclica, e também a Igreja não está adotando um modismo, mas faz parte da sua compreensão teológica pensar o cuidado com a criação, dom de Deus. Mas não vamos falar disso... vamos falar da tal da 'ecologia'.

É preciso diferenciar entre meio ambiente e ecologia. Pensar o meio ambiente é pensar aquilo que nos rodeia, que é visível a nós pois está no horizonte de nossa visão, da nossa experiência cotidiana: o cuidado com o lixo, não poluir os rios da nossa cidade, cuidado com agrotóxicos... Falar de 'ecologia' é falar de algo bem mais amplo que 'meio ambiente'. Ecologia é a totalidade: a interação de todos os seres vivos com o meio onde vivem. Deriva da palavra 'oikos' que significa casa, e 'logos', significa estudo. A nossa casa é o nosso planeta. Pensar a ecologia, portanto, é pensar o planeta inteiro, e não só o meio que nos circunda.

Mas aqui é que nos entramos em um impasse que criamos desde que o método de René Descartes (1596-1650)  foi adotado por grande parte da ciência. Para que haja conhecimento científico é preciso dividir o problema em partes menores (análise) e depois, reuni-lo novamente (síntese). Logo, para conhecer, é preciso dividir, conhecer parte por parte. O próprio conhecimento se dividiu em ramos: biologia, química, física, medicina, psicologia, antropologia, sociologia, etc. O que resultou de que nosso conhecimento, e até nossa vida, nossas ações, são isoladas do meio em que vivemos, e do impacto que temos no nosso planeta.

Em meados do século XX, o biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffi (1901-1972),  a partir do estudo do corpo humano, vê este como um organismo único, que é composto de organismos menores funcionando em perfeita harmonia como uma totalidade. Desta forma, repensou a fragmentação produzida por Descartes. Teorizou o corpo como uma totalidade, como um sistema (a pessoa humana) composto de subsistemas (sistema circulatório, sistema digestivo, etc.). 

A ideia de Bertalanffi ficou denominada Teoria Geral dos Sistemas, em que o meio interfere no sistema, reorganizando-lhe a estrutura para se manter em um padrão de funcionamento. Essa teoria, saindo da biologia, contagiou outras áreas como a administração, a informática, direito, astronomia, física, etc. Quase todas as áreas começam a falar de sistemas e sub-sistemas. Esse paradigma de pensamento é chamado por Fritjof Capra de 'pensamento sistêmico' ou 'pensamento ecológico'. Ecológico porque leva em conta as relações, as reorganizações, as articulações, a totalidade.

Na expressão 'pensamento ecológico', não estamos falando em pensar o meio ambiente, nem mesmo pensar a ecologia, fragmentar as questões, com discursos unilaterais como o problema do aquecimento global, a crise do neoliberalismo, o aumento da pobreza, a defesa dos animais de estimação, a necessidade da espiritualidade, o cuidado com os outros e com a Terra. Não são discursos isolados, mas um único discurso contemplando todas essas áreas de uma única vez: se passa da questão de pensar a ecologia (na forma cartesiana) para pensar ecologicamente (pensamento sistêmico, ecológico, a partir da totalidade). O 'pensamento ecológico' é deixar de pensar de forma fragmentada os problemas, mesmo o da ecologia, e perceber que são questões entrelaçadas, que uma coisa afeta a outra, e que por isso não há soluções simples, e é preciso procurar juntos ações capazes de amenizar o impacto do que já foi feito com a natureza, da qual nós somos parte.


Publicada em 11/02/2016 às 16:45:30

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