Maria, Mãe

A experiência existencial antecede a reflexão teológica.  Antes de se formular tudo o que se sabe sobre os dogmas marianos, no que se concretizou na longa exposição do Magistério através dos Concílios e da sistematização nos catecismos, o povo já sabia que Maria não era uma mulher comum. Ela era Mãe. Ela era a Mãe do Salvador. Ela quis ser a Mãe do Salvador.

     Há uma intuição natural que perpassa todas as pessoas quando se ouve a palavra Mãe. Cada um, que é capaz de se lembrar da sua própria mãe, não consegue ficar indiferente a essa palavra, que não é somente uma palavra, é um símbolo que abarca um olhar, o cheiro, o cuidado, a pele, também o riso e as lágrimas que cada filho vê no rosto de sua mãe e que nunca vai ser esquecido, vai ficar marcado na memória consciente e inconsciente.

     De acordo com alguns psicanalistas que trabalham com crianças, os bebês nascem em estado de pânico, com um sentimento de angustia inimaginável. Winnicott chamou de 'agonia primitiva' e Bion chamou de 'terror sem nome'. Nessa situação, é indispensável ter alguém que acolha, cuide e ame o bebê, para que ele não sucumba numa psicose. Esse alguém geralmente é a mãe, que vai dar segurança ao bebê, para que ele vá crescendo e aprendendo a dar conta de todos esses sentimentos que podem aniquilá-lo. São sentimentos que Melanie Klein chamou de pulsão de morte.

     Daí resulta que o cuidado ou a falta de cuidado das mães para com seus filhos geram pessoas saudáveis ou doentes afetivamente. A falta de cuidado é chamado por Winnicott como uma 'catástrofe do ambiente'. São indivíduos que crescerão sem ter suficientemente a força necessária para suportar as vicissitudes da vida, pois haverá um déficit de afeto e provavelmente sentimentos de vazio, falta de sentido na vida e a constituição de um falso eu (falso self).

  No que se refere ao cuidado, está implicado a amamentação, a pele da mãe que dá segurança à criança, o rosto da mãe que olha para seu filho e que o faz sentir-se amado, existente no mundo, seguro, e que a privação destes momentos pode causar terríveis conseqüências emocionais para uma vida inteira. Na falta da mãe, é necessário um cuidador que faça o papel da maternagem. Os momentos de frustração também são importantes, quando a mãe não dá conta de toda a demanda do filho, mas nessas situações há um crescimento emocional da criança em saber que nem sempre poderá obter aquilo que quer, e começar a sentir a dor mais terrível que todos nós passamos e demoramos a vida inteira para nos curar: o trauma de saber que não somos o centro do mundo.

     Quando refletimos com profundidade sobre a mensagem do anjo Gabriel àquela adolescente pobre, vivendo na insignificante localidade de Nazaré, muito longe do centro de poder e das decisões, e percebendo que o anjo anunciava que ela, entre todas as mulheres que já existiram e que ainda existirão, ela... seria a Mãe do Salvador da humanidade, não há como não ser tomado de entusiasmo e gratidão pelo sim dado por Maria. 

     Maria co-participa do plano salvífico do Pai, de fazer-nos participar da alegria da Trindade pela mediação única do Filho, no Espírito Santo. Ela disse o seu “sim” na liberdade e no amor, possibilitando o salvador vir ao mundo. Mas Deus já havia preparado esse acontecimento desde a criação, quando olhou com cuidado especial para Maria e a preservou do pecado original (dogma da Imaculada Conceição) a fim de que ela fosse, na plenitude do tempo, a Mãe de Deus.

     Outro sentimento que nos enche da gratidão é de que o nosso Deus não é indiferente ao nosso sofrimento, à nossa dor, à opressão e as injustiças do mundo. Já no Antigo Testamento Deus se revela como Libertador, tirando o povo do Egito. Aquele que propõe uma aliança que será lembrada e defendida pelos profetas. É esse mesmo Deus que envia o Salvador para instaurar o Reino de Deus, é levado para a cruz, morrendo por nossos pecados, ressuscitando ao terceiro dia, destruindo a morte e nos dando acesso ao Pai, cuja vitória é penhor da nossa própria ressurreição. E o salvador veio ao mundo por meio de Maria... que o amou como uma mãe ama e cuida de um filho.


Por: Pe. Eliseu Lucas Alves de Oliveira

Pároco da Paróquia São Pedro 

Apóstolo de Ajuricaba - RS

Coordenador da Pastoral da Juventude

Publicada em 12/05/2016 às 10:17:36

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