Um Olhar Para o Oriente

O papa Francisco, em fevereiro último, num encontro com o patriarca Kyril, reatou oficialmente a diplomacia com a cristandade ortodoxa russa. Esta foi mais uma ação da política adotada pelo atual papa em relação aos irmãos de Igrejas separadas, na busca pelo diálogo interno e externo da Igreja Católica Apostólica Romana no mundo contemporâneo. Uma resposta também ao Aggiornamento fortemente debatido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Todavia, o cristianismo oriental, por vezes, apresenta-se como um verdadeiro desconhecido. No domingo que passou, o papa Francisco rezou pelo Concílio Pan-ortodoxo. Que é este Concílio? Procuro, aqui, dar breves orientações sobre grande acontecimento do cristianismo ortodoxo, com data prevista para acontecer entre 19 e 27 de junho de 2016, na ilha de Creta, Grécia.

“Hoje, Solenidade de Pentecostes segundo o Calendário Julianoseguido pela Igreja Ortodoxa, com a celebração da Divina Liturgia teve início,em Creta, o Concílio Pan-ortodoxo. Unamo-nos à oração de nossos irmãosortodoxos, invocando o Espírito Santo para que sustente com os seus dons osPatriarcas, os Arcebispos e Bispos reunidos no Concílio.” PapaFrancisco em 18 de Junhode 2016.


Este Concílio, o primeiro para os ortodoxos após Nicéia (725), vem sendo preparado desde 1961 , e é apontado por especialistas da área, como o Vaticano II da Igreja Ortodoxa. Desde 1054 , após a separação com Roma e Ocidente, Constantinopla, considerada a representante espiritual da ortodoxia, e mais 13 patriarcados , autocéfalos e em plena comunhão entre si, continuam seguindo a mensagem de Jesus Cristo, através de um corpo doutrinal  formulado até Nicéia. Por estarem a mais de um milênio do último Concílio, patriarcas e lideranças ortodoxas, entenderam que é hora de a ortodoxia  rever a sua doutrina e apresentar uma mensagem a par das mudanças que o mundo apresenta.
Documentos preparatórios para debate e reflexão no Concílio apresentam seis pontos: missão da Igreja ortodoxa no mundo atual, a diáspora ortodoxa, autonomia eclesiástica, a importância do jejum, relações da ortodoxia com o resto da cristandade e o sacramento do matrimônio ; entre outros assuntos de foro interno das Igrejas ortodoxas.
A questão sobre os primados, no entanto, é justamente algo que pode frustrar os planos do Concílio de Creta. Nacionalismos, culturas e qualquer outro aspecto que venha sobrepor-se à unidade eclesial de comunhão é o que a ortodoxia jamais almejou. Os patriarcados da Rússia, da Bulgária, da Geórgia e de Antioquia, após terem participado dos sínodos preparatórios, nos instantes finais decidiram não integrar o Concílio. Desta forma, a unidade pode ser quebrada. E o Concílio apenas tornar-se uma reunião sem peso de decisão doutrinal, retardando o diálogo ortodoxo com o mundo contemporâneo.
Dito isto, convém lembrar que o Concílio Vaticano II foi um acontecimento salutar no reatar das relações diplomáticas e de revogação de excomunhão mútua entre Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR)e Igreja Ortodoxa. Por isso no período pós-Vaticano II, a ICAR realiza uma tentativa, quiçá mais de diálogo que propriamente o resgate das fontes e raízes orientais perdidas em opções histórico-político-culturais. Não se trata de um solapar ou um mudar fatos da história, mas de dar vez e voz ao bom senso, e crescer na fé e na aceitação da pluralidade cristã das bandas orientais. O decreto UnitatisRedintegratiodo Vaticano II, número 24 apresenta: “O Sacrossanto Sínodo exorta os fiéis a se absterem de qualquer zelo superficial ou imprudente que possa prejudicar o verdadeiro progresso da unidade [...], deseja com insistência que as iniciativas dos filhos da Igreja católica se desenvolvam unidas às dos irmãos separados” .
A ICAR, salvo exceções, especialmente em meios acadêmicos, praticamente não conhece o oriente cristão. Assim, seguindo os passos do Papa Francisco, temos o convite de sintonizarmos na fé com nossos irmãos ortodoxos, para que reunidos pela comunhão no único e verdadeiro Senhor, Jesus Cristo, professemos nossa fé e nossa esperança na unidade cristã e na soma das diversidades culturais, construindo o Reino da paz, da justiça e do amor.


Frei Cirineu Bonini da Luz, OFM.Estudante do 1° ano de teologia.

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* Conferência Pan-ortodoxa ocorrida em Rodas-Grécia.
* Em vista de motivações doutrinais, culturais e políticas. Optamos por deixar esta reflexão para outro momento.
* São eles: Alexandria, Antioquia, Jerusalém, Bulgária, Geórgia, Sérvia, Rússia, Romênia, Polônia, Chipre, Grécia, Albânia, e República Tcheca e Eslováquia.

* Revista Chams, n° 67 II, p.12.
* “Embora sendo reivindicado por todas as Igrejas, ele foi, de fato, monopolizado pelas Igrejas bizantinas separadas de Roma.” Enciclopédia Larousse Cultural. Rio de Janeiro, 1972.
* http://www.acidigital.com/noticias/apos-mais-de-mil-anos-de-espera-concilio-das-igrejas-ortodoxas-poderia-ser-cancelado-69531/. Acessado em 18/06/2106 às 22:10h.

* Compêndio do Concílio Vaticano II. Constituições, decretos, declarações. Vozes: Petrópolis, 1984, p. 331.

Publicada em 24/06/2016 às 11:39:17

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