O Semeador saiu para semear

Outubro é o mês missionário. A parábola do semeador descreve muito bem o que é a missão (Lc 8,4-15). É jogar a semente da Palavra para que dê frutos. Mas para isso, o solo é de muita importância. Precisa ser um solo favorável. O solo pode ser cada um de nós que se abre à mensagem do Evangelho. Mas pode ser a cultura atual, o campo onde o missionário vai atual como evangelizador.
Uma das características deste cultura é o declínio da figura paterna e sua correspondente posição de autoridade. Para Freud, toda autoridade é simbolizada na figura do pai. Na sociedade, significou a passagem de uma ordem vertical, de cima para baixo, de uma hierarquia de desiguais para uma ordem horizontal, um acordo entre iguais.
Esta mudança começa dar seus primeiros passos na passagem de uma sociedade teocêntrica (onde Deus é o centro) para uma sociedade antropocêntrica (o homem é o centro). A grande autoridade, que era Deus e as escrituras sagradas, já não justificaram mais a moral e as autoridades terrenas, e nesta mesma lógica de raciocínio o rei, representante de Deus na terra, também é deposto. O poder está finalmente nas mãos dos iguais. Não é por acaso que aparece a palavra igualdade nas lutas pela liberdade e fraternidade das revoluções que derrubaram as monarquias.
Será a mesma igualdade e a liberdade que serão defendidas pela economia liberal e neoliberal (onde não há intervenção do Estado com políticas públicas) para que a economia se autorregule nas ações de livre-iniciativa. A diminuição do Estado como uma autoridade para dar espaço à livre iniciativa é um sintoma do declínio da função paterna de proteção e regulamentação no campo social.
Essa mudança cultural se evidencia literalmente na família. Houve um tempo em que o pai era o chefe inquestionável. Tudo o que o pai dizia era ‘a lei’ intransponível. O pai era o responsável por delimitar os espaços de atuação de cada um, era aquele que ditava as normas e as fazia cumprir. Nos dias atuais, as famílias utilizam mais o diálogo, onde a mãe e os filhos são ouvidos. A autoridade é dividida entre o pai e a mãe. Na sociedade atual, a autoridadefunciona mais pelo exemplo do que pela lógica do ‘quem manda aqui sou eu’.
Uma cultura quealcançou as empresas e as instituições. Nasrecentes teorias da administração, o chefe que centraliza as decisões e comanda com ‘braço de ferro’ os seus ‘empregados’ deu lugar ao líder que motiva e coordena as ações descentralizadas dos diversos grupos de trabalho composto pelos‘colaboradores’. As instituições perceberam que a centralização e a burocracia tem o efeito de deixar o processo de decisão e execução das ações muito lento, engessado e ineficaz pelo distanciamento das realidades que deseja interferir.Na pedagogia, o professor não é aquele que sabe e transfere o seu saber, mas o que constrói o conhecimento com os alunos.
Como consequência da perda da autoridade de um chefe, um representante da ordem e da verdade, aparece a multiplicidade de interpretações chamada de relativismo. Assim, não há mais quem represente a verdade única, nem mesmo no campo da moral. Também a ética é posta em discussão. Na teoria de J. Habermas, uma ética válida para todos se constrói no diálogo até se chegar ao melhor argumento.
Há, dentro dessa dinâmica plural, democrática, um receio de uma perda de identidade e de sentido junto com um medo do relativismo moral, da ideia divergente, surgindo grupos que defendem um retorno urgente da figura da autoridade, tendo como consequência: a defesa de uma única religião verdadeira (fundamentalismo), um governo forte e centralizado, o fechamento das fronteiras às imigrações e o crescimento de instituições alicerçadas na disciplina e na hierarquia.
Todavia, nem tudo são perdas ou conquistas nestes últimos anos. Há de se considerar que a democracia nunca é uma perda, mas que os excessos dos indivíduos que não respeitam o coletivo em nome de uma pretensa liberdade de expressão pode ser um sinal de declínio social e civilizatório.
São aspectos culturais que o missionário irá encontrar para semear a Boa Nova. Apresentar o Evangelho como um caminho seguro para uma sociedade fraterna, baseada no amor a Deus e ao próximo. A Palavra que não se impõe pela força, mas é uma oferta de salvação que cada um precisará escolher e aderir, dando um novo sentido à vida e modificado suas práticas para que se torne um autêntico discípulo missionário, cujo guia e modelo é o próprio Jesus Cristo.

Por: Pe. Eliseu Lucas de Oliveira
Pároco da paróquia São Pedro Apóstolo
Ajuricaba

Publicada em 11/10/2016 às 08:34:22

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