O poder das palavras

Muito antes da modernidade, Santo Antônio certa vez disse: “cessem as palavras e falem as obras”. Santo Antônio estava se referindo a nossa espiritualidade que deve estar baseada na caridade, como diz o apóstolo Tiago: “a fé, se não se traduz em ações, por si só está morta.” (Tg 4,17).
No início da modernidade, com o advento do método científico, a investigação da natureza tem a intenção de definir as causas para modificar as conseqüências. Descobre-se, assim, que a natureza pode ser transformada de acordo com a vontade humana. A parceria entre ciência e a razão tem por objetivo a transformação do mundo. Surge o mito do progresso infinito. O mundo poderia ser estruturado de acordo com a razão e a vontade humana, rumo à perfeição.
Há uma forte crítica da parte dos que atuam no mundo (os cientistas como homens práticos) em relação aos que apenas pensam sobre a realidade (os filósofos como homens puramente teóricos). Na metade do século XIX, um pensador dizia: “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente. O que importa é transformá-lo”.
Hoje, existe no senso comum a ideia de que vale muito mais as atitudes do que as palavras. A palavra seria apenas o relato ou definição do que o mundo é. As atitudes seriam capazes de tornar o mundo diferente.
Apesar do declínio do poder da palavra na atualidade, na escritura sagrada ela é de suma importância. No início do evangelho de João, temos a expressão: “No princípio era a Palavra” (Jo 1,1).
No pensamento bíblico, não há distinção entre dizer e fazer. No conceito hebraico Dabar (palavra), dizer é fazer. As palavras têm força de criar a realidade. Na criação do mundo, as coisas começam a existir pela força das palavras. “Deus disse: “Faça-se a luz”! E a luz se fez.” (Gn 1,3).
É pela força da Palavra como promessa que Abraão inicia sua caminhada para formar o povo de Deus. “Sai da tua terra” (Gn 12,1). O conceito de Fé, no entendimento bíblico, é acreditar na palavra de alguém. Ter confiança.
O primeiro encontro de Moisés com Deus é por intermédio da Palavra. Do meio da sarça ardente, Deus fala a Moisés: “Eu vi a opressão de meu povo no Egito, ouvi o grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos.” (Ex 3,7). A Palavra de Deus impele Moisés a agir para libertar o povo. “Eu te envio ao faraó para que faças sair o meu povo, os israelitas, do Egito”. (Ex 3,10).
É através da Palavra que os profetas se posicionam diante dos reis que oprimem e diante do povo que se desviou do caminho de Deus. Os profetas não usam a força física, nem armas, nem exército. É pela Palavra que eles interferem na realidade.
Depois de tantas invasões e deportações, o povo judeu se concentra em cima de um Livro, para não perder a sua identidade e para não esquecer a Lei do Senhor, a Aliança com Deus. O povo judeu se estrutura como a religião do Livro (a Torá).
Quando o evangelista João diz que “no princípio era a Palavra” (Jo 1,1), ele queria falar da divindade e eternidade do Filho, a segunda pessoa da Trindade. João considera Jesus como a Palavra de Deus. É assim que ele concluir: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Jesus é a Palavra criadora de Deus que existe desde sempre e que, na plenitude do tempo, veio morar no meio de nós. “Deus visita o seu povo” (Lc 7,16). O que Deus disse e prometeu, se realiza nas obras de Jesus.


Pe. Eliseu Lucas de Oliveira

Pároco da paróquia São Pedro Apóstolo, de Ajuricaba

Publicada em 11/11/2016 às 17:10:23

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